Deslocamentos na política mundial (1899)

Num artigo de espantosa atualidade, Rosa analisa o papel crucial da China para a sobrevivência do capitalismo europeu e norte-americano.

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Leipzig, 13 de março,

Não importa se a Itália será ou não bem-sucedida em sua tentativa de hastear sua bandeira na China[1]: trata-se de uma evidência interessante da atração magnética que o leste asiático exerce sobre a política de todos os países europeus. Até mesmo a Itália esfacelada, que mal consegue viver, mas tampouco pretende morrer, sente que o destino mundial do capitalismo atualmente vem sendo decidido no Mar Amarelo.

De fato, a guerra sino-japonesa representa um período específico não apenas da Ásia, mas também do desenvolvimento do capitalismo de forma geral. Já é voz corrente que, desde a Paz de Shimonoseki[2] (17 de abril de 1895), existem duas questões relativas ao Oriente: a do Bósforo e a do Mar Amarelo. Mais correto seria dizer que agora temos uma questão oriental – a do leste asiático – uma vez que a mais antiga, a de Constantinopla, perdeu o seu significado maior. Em seu lugar, a questão chinesa avançou para primeiro plano.

Desde que, nos anos 1880, todos os países eslavos importantes ocultos no seio da Turquia ganharam sua independência e a desagregação histórica do reino turco foi obrigada a parar diante dos interesses políticos internacionais da Europa, o papel da questão turca ficou provisoriamente encerrado. A partir do momento em que a preservação da integridade da Turquia se tornou palavra de ordem da diplomacia internacional, principalmente da diplomacia russa, toda a velha questão oriental se tornou ponto morto para a política europeia. De um lado, era no Bósforo que estavam adensados os principais interesses econômicos e políticos, simultaneamente aos principais contrastes de todos os grandes poderes europeus, mas, por outro lado, a partir de um dado momento, não avançavam nem recuavam. Era como se as forças motrizes da política mundial se encontrassem encurraladas na Sublime Porta de Constantinopla, sendo que os contrastes não podiam eclodir nem ser neutralizados.

Esse último período de calmaria política coincide com um período de declínio econômico na Europa: o capitalismo e a sua diplomacia estavam em apuros havia vários anos.

A guerra sino-japonesa de 1895 caiu como uma graça divina nesse período de exaustão econômica e política da Europa. Era como se a cortina histórica da Ásia fosse aberta de uma só vez. Todo um continente foi entregue ao fluxo asfixiado do desenvolvimento capitalista. Sobretudo a política europeia ganhou todo um novo e vasto campo de influência. Enquanto, pouco antes, ela estava obrigada a se concentrar em um único ponto estratégico na Turquia, agora um reino imenso se abria a ela. E enquanto, para as condições econômicas dos estados europeus, a conquista de Constantinopla teve uma importância apenas mediana, a exploração da China ofereceu ao capitalismo e à política internacional um campo inesgotável. Por fim, enquanto no Bósforo participaram principalmente Rússia, Inglaterra e Áustria, e outros países apenas em parte, na nova grande divisão da China todos, incluindo a união norte-americana, estão diretamente interessados, e até quem não morreu inteiramente ainda, como a Itália, tenta participar a qualquer preço.

O que impressiona mais do que tudo no grande teatro universal que se passa por esses dias diante dos nossos olhos é a velocidade inédita com que os países europeus se apoderam do novo território, tanto em termos econômicos quanto políticos. Vejam a repentina pujança do comércio desde o tratado de paz de Shimonoseki – basta comparar os números do comércio via a cidade de Hiogo, típico para as circunstâncias.

 

Comércio (em yen) entre                   1895                            1897

China e Japão                                      19 839 469                  32 262 459

China e Inglaterra                               20 686 561                  30 309 669

China e Índia                                      10 645 534                  25 310 298

China e EUA                                      14 236 202                  22 086 780

China e Alemanha                               6 538 951                   7 727 376

 

Além disso, observem-se as imensas construções ferroviárias: atualmente, quase 6 mil quilômetros estão em construção, sendo que os russos penetram ao norte pela Manchúria, os ingleses do sudeste via Burma, os franceses do sul por Tonkin, os belgas de Pequim para Hanku, os americanos de Hanku até Cantão, os alemães de Kiauchu para Tsiniang, os ingleses de Tientsion para Niutshuang e de Shangai para Hanjhou – uma imagem inédita até mesmo na história do capitalismo.

Mas com a mesma velocidade com que a economia e a política capitalistas ocupam essa área nova e gigantesca, crescem e se desenvolvem também as suas mazelas internas. É uma praga da economia capitalista o fato de ela não poder se desenvolver e crescer sem que suas contradições internas adormecidas não se desenvolvam da mesma forma e acelerem o seu colapso final.

O novo campo de influência da política internacional tem por consequência imediata o acirramento dos contrastes internacionais entre os países capitalistas. Enquanto, no Bósforo, esses contrastes ficaram congelados, agora, na China, podem se desenvolver e potencializar em uma luta incessante. Esse fenômeno encontra expressão palpável em uma nova era de armamentos grandiosos em terra e no mar que vivenciamos nos últimos anos na Europa.

O novo campo de experimentação do capitalismo internacional tem por consequência, em igual medida, o acirramento dos contrastes econômicos e da concorrência entre os diversos países. E tudo isso se expressa em uma nova era de proteção alfandegária na Europa.

Mas os contrastes internacionais entre os estados capitalistas são apenas um lado das contradições internas de classe da sociedade capitalista. A era do militarismo, do marinismo [Marinismus] e da proteção alfandegária induzida pela exploração da China se reflete nas condições sociais internas dos países europeus ao fortalecer a reação e aguçar as contradições entre governos e classes dominantes de um lado e o povo trabalhador do outro. O poderoso boom industrial provocado pelas novas regiões de consumo na Ásia acelera, por sua vez, o declínio dos pequenos produtores e a proletarização nos velhos países europeus. Assim, um vento novo e vigoroso sopra sobre a luta de classes, tanto no aspecto econômico quanto no político.

Mas o que, em todo o atual período de pujança, é o mais importante e atraente é que, segundo toda a previsão humana, será o último.

Com a Ásia dividida e devorada, não sobrará ao capitalismo europeu nenhuma região nova. O mundo efetivamente terá sido dividido, e todos terão o seu senhor. No curto ou médio prazo, a nova questão do Oriente entrará no mesmo estágio em que a velha enrijeceu. Passo a passo, os adversários europeus se aproximarão a tal ponto que, por fim, se enfrentarão peito a peito. E os poderes econômicos e políticos despertados neste meio tempo – a indústria altamente desenvolvida, o incrível militarismo – começarão então a pesar sobre o corpo social com toda a sua força, sem encontrar um novo canal de escoamento. Quanto tempo durará essa fase dos anos magros seguintes do capitalismo, isso dependerá basicamente do estágio e dos progressos do movimento dos trabalhadores nos principais países capitalistas. Pois no momento em que toda a Terra tiver sido involucrada pelo capitalismo – e isso estará quase definitivamente completo com a divisão da Ásia – e no momento em que os contrastes econômicos e políticos internacionais, estiverem, assim, potencializados ao máximo, o capitalismo, por sua vez, terá chegado ao fim da linha. Só poderá continuar vegetando enquanto seu herdeiro, o proletariado socialista, não tiver maturidade para receber o legado histórico.

Em face da velocidade e da voracidade com que o capital e seus instrumentos políticos se lançaram sobre a Ásia e se apoderaram ao longo de três anos de quase metade de um continente, em face desse açodamento inédito com que todos os países capitalistas se lançam sobre esse último pedaço de carne gorda como cães famintos se lançam sobre um osso, em face desse drama internacional do “desaceleramento” do desenvolvimento capitalista – em face de tudo isso, falar da imprevisibilidade, até mesmo da impossibilidade do colapso capitalista, significa a cegueira de uma toupeira que, de tanto “trabalho prático” em construir seus montinhos, não enxerga e nem escuta a erupção do Vesúvio que se aproxima.

Leipziger Volkszeitung, nº 59, 13 de março de 1899

Tradução: Kristina Michahelles

* Publicado em Rosa Luxemburgo, Gesammelte Werke 2, Berlim, Dietz, 1982, p.361-65.

[1] Em 28 de fevereiro de 1899 se noticiou que a Itália exigiu que a China lhe desse os direitos ou arrendasse a baía de San-Mun. A China repudiou essa exigência no dia 5 de março de 1899. Como a Inglaterra concordava com uma ação diplomática da Itália, o governo italiano divulgou uma declaração em maio afirmando não ter pretensões territoriais na China, almejando apenas estações de abastecimento de carvão.

[2] O tratado de paz de Shimonoseki, de 17 de abril de 1895, selou o fim da disputa sino-japonesa pela península coreana em favor do Japão, obrigando a China a reconhecer as exigências territoriais japonesas. Assim, começou a fase da divisão da China em esferas de influência dos poderes imperialistas.